Renascimento
Ciclo I, Crónica 1.5
I’m close to own oblivion, my own fate.
And I must fight my fears and survive this madness…
Nascer, viver, morrer.
Este é o verdadeiro e cruel caminho da vida.
Complexa e autoritária, assim manda o destino.
Hipócrita e malevolente, assim se encontra este mundo.
Edward, um rapaz bem parecido, de 25 anos, saboreava o seu doce vinho, observando atentamente o suave e belo rosto de Elisha, de 24, dona de longos cabelos negros e de um olhar sensual e ao mesmo tempo, profundamente penetrante. Ambos jantavam calmamente num modesto restaurante, à luz das velas e ao som de uma leve sinfonia de Chopin.
― Por favor ― pediu Edward, dirigindo-se a um empregado de mesa ―, pode chegar aqui um momento?
O empregado, sem qualquer demora, acedeu ao seu pedido. Elisha bebeu um pouco de vinho e limpou os seus carnudos lábios, observando expectante o momento. Edward sussurrou aos ouvidos do rapaz, que sorriu ligeiramente, percebendo prontamente do que se tratava.
― Concerteza, senhor. ― O empregado deu meia volta e seguiu o seu caminho, tratando do recado pedido por Edward.
― O que foi isso, Ed? ― perguntou Elisha, cuja voz iluminava o seu espírito.
― Simplesmente um pedido, Elisha ― retorquiu o jovem ― Nada com que tenhas de te preocupar.
― Enigmático como sempre, vejo.
Edward esboçou um ligeiro sorriso.
― Mas confessa, até gostas dos meus enigmas.
Elisha bebeu mais um pouco de vinho e olhou o rapaz com o seu típico olhar.
― Não faças isso, querida, que esse teu olhar derrete até um icebergue.
A rapariga sorriu.
― Ai sim?
Ambos continuaram a comer calmamente e a conversar durante um bom bocado, até chegar o empregado.
― Está tudo em ordem, senhor.
― Muito obrigado.
O empregado retirou-se e Elisha ergueu o sobrolho de curiosidade.
― Porquê tanto mistério, Ed?
― A felicidade é efémera, querida. E tu és a parte mais importante da minha felicidade.
Antes que a rapariga pudesse dar por isso, corou e algo atrapalhada, olhou para a mesa por breves instantes.
― Sabes ― continuou ele―, muitas vezes pensei em como seria a vida se ela fosse um papel.
― Um papel? ― perguntou ela, curiosa.
― Sim, um papel. Pensei que nós seríamos como um lápis fino e que o simples processo de viver seria como desenhar…
― E porquê um lápis fino? ― interrompeu Elisha.
― Porque sabes que quando queres esquecer algo, queres apagar tudo isso da tua memória. De tal modo que…
― … que podes apagá-la facilmente do desenho com uma… borracha?
― Exacto.
― Então queres dizer que me queres esquecer, é isso? ― Elisha estava agora preocupada.
Edward sorriu.
― Não. Não me deixaste acabar, tonta.
― Ah, ok, desculpa ― respirou fundo, aliviada ― Continua.
E ambos beberam mais um pouco de vinho.
― Cheguei à conclusão que tu, ou melhor, os teus esboços nesse papel que é a minha vida, teriam de ser desenhadas com o lápis mais grosso que existisse nesse mundo. Assim como a família. São partes cruciais na vida de qualquer pessoa. Enquanto que os amigos, tanto desenhamos com um lápis fino ou com um lápis grosso: amizades fazem-se e perdem-se.
― E com tudo isso queres dizer que?… ― Elisha já esperava mais ou menos o que Edward iria dizer, e pequenas lágrimas nasceram nos cantinhos mais profundos dos seus aliciantes olhos.
O rapaz fez um gesto com a mão esquerda e subitamente a música de fundo mudou. Elisha ficou prontamente sem palavras.
― A música… que passou quando nos conhecemos. ― disse ela, absorta em antigas memórias.
― Com isto, quero te perguntar… ― Edward aproximou-se da sua amada ― se casas comigo.
Closest to heavens is my heart,
Deepest in darkness a new fear awaits…
XI – Onze
Ciclo I, Crónica 1.4
Closest is your fate…
… But the path to reach it is beyond your soul.
11…
Como a vida é bela!
Contemplo o verdume da natureza e delicio-me com o canto de pequenos rouxinóis que voam livremente pelo caminho etéreo da liberdade. Respiro o puro ar do jovial ambiente em que me encontro, sozinha e sentada num pequeno banco de madeira deste luzente e colorido jardim. Borboletas pousam em várias plantas, entre as quais observo calmamente várias tulipas e cravos dançando sobre o leve ondular da brisa que me acaricia a face.
O momento passa-se em perfeita harmonia, no qual dou graças aos deuses por tamanha beleza.
Agradeço a Deus por ser quem sou e por ter a vida calma e pacata que tenho.
10…
Subitamente, sou agarrada por trás. Amordaçam-me a boca com um pano e ouço então duas vozes masculinas a rejubilarem com a sua mais recente conquista. Os meus braços são envolvidos em bruta violência e, instintivamente, esperneio furiosamente. Olho em frente, e observo outro indivíduo, sedento de desejo, a prender-me as pernas. É então que sinto, enojada, uma língua nauseabunda a percorrer o meu rosto, acompanhado de uma lâmina afiada no meu frágil pescoço.
O que se passa? O que me está a acontecer?
A calmaria dá lugar à tormenta.
9…
― Colabora, preta, e não te fazemos mal. Só queremos uma fodinha rápida.
Tenho vontade de chorar, mas não cedo ao prazer deles. Tento reagir o melhor que posso, mas em vão. As minhas pernas são abertas lentamente e os meus seios são violentados pelas mãos e pelos dentes deles.
Sinto dor. Mas não posso sentir medo.
Tenho de…
… Tenho de reagir.
― Tens umas mamas mesmo boas, preta. Deixa-me lá vê-las.
Não consigo.
Não… consigo.
Não… preciso de…
8…
O sexo moribundo do indivíduo é colocado diante da minha vista, e é então que fecho os olhos.
― Abre os olhos, puta. Não gostas do meu belo caralho?
Não respondo com sinal algum. Repentinamente sinto uma forte estalada esvair-se na minha face como um tornado devasta uma pequena aldeia, onde após a qual sou forçada a sentir o desejo deles.
― Abre os olhos, já ― ouço.
― Segura bem nela ― diz o que se encontra à minha frente, levantando-me a saia e arrancando-me as cuecas. ― Uau, vê-me só esta ratinha pretinha. Vai cá ser uma queca e pêras.
7…
Sou penetrada violentamente, sem qualquer protecção. A minha mente é atormentada por diversas memórias, nas quais tento ignorar as profanas tentações visualizando na minha cabeça o florido jardim.
Sinto dor.
Sinto nojo.
Sinto ódio.
Mas não sinto medo algum. Não tenho medo de morrer.
Porque o medo é para os fracos; e a morte é a glória final da vida.
6…
Sinto algo quente e húmido dentro de mim. O indivíduo que acabara de me penetrar contra a minha vontade retirou o seu sexo molhado e esfregou-mo na face, na qual tento reagir novamente, mas sem sucesso.
Nova estalada, desta feita com as costas da mão e ainda mais bruta que a anterior, que me fez sangrar abundantemente do nariz.
― Lambe-mo, já, que estou cheio de esporra até aos poros ― ordenou ele, apertando-me o pescoço com apenas uma mão e masturbando-se com a outra, enquanto o indivíduo que me segurava os braços me levantava calmamente e simulava uma penetração nas minhas nádegas.
5…
Sou então penetrada no ânus pelo indivíduo que me segurara os braços enquanto o seu cúmplice se masturba furiosamente diante da minha face.
Novamente sinto dor. Sangro. Não só fisicamente, mas também do coração, da alma. A jocosa dor ri-se morosamente de mim, como se me ignorasse; no entanto tento evitar que ela me afecte.
Tento pensar novamente no florido jardim…
… Mas novamente nojo, dor e ódio.
4…
Ouço gemidos ardentes e abafados dos dois indivíduos; enojo-me com o cheiro deles.
O indivíduo que se masturbava ejaculava agora na minha face, sobejamente declarando a sua vitória sobre mim.
O indivíduo que me penetrava por trás retira o seu sexo nauseabundo e vira-me, masturbando-se velozmente; num ápice sou atingida na boca por novo e repugnante jacto.
3…
― Mas que queca, meu ― declara um deles, rindo fugazmente. ― Das melhores que já tive.
― Também eu, também eu…
― Hem, pretinha? ― diz o que se encontrava agora diante de mim, segurando os meus negros cabelos lisos, agora profanados com pequenos traços de sémen, com suprema violência. ― Diz lá se não gostaste, hem? És a melhor fodinha que já tive.
E voltaram a rir-se.
E eu queria chorar.
Mas eu não podia ceder nunca ao prazer deles.
2…
Um deles dá-me mais uma estalada forte; mas agora não a sinto. Tenho a consciência adormecida, focada no pequeno e florido jardim, cheio de tulipas e cravos, nas quais as verdes e puras árvores cantam as suas belas canções, embaladas pela suave e melódica brisa.
Morri?… Não, ainda não… Mas observo o horizonte, no qual o jardim se torna pálido e obscuro; e então vejo a morte, sorrindo funestamente.
1…
― E agora? O que fazemos com ela? Levamo-la? ― pergunta um deles.
― Sim ― retorquiu o outro. ―, aproveitamos e fodemo-la outra vez. Depois vamos matá-la e enterrá-la para que ninguém descubra.
― Fixe, fixe ― disse o primeiro indivíduo, esfregando maliciosamente as mãos. ―, ‘bora.
O meu nome é Maria e sou negra. Tenho 26 anos, um marido perfeito e duas filhas lindas.
No entanto em onze minutos tudo perdi. Em onze minutos três vidas perderam-se.
Sempre os amei, e sempre os amarei e protegerei, olhando lá de cima por eles.
Porque a morte chamou-me grotesca e brutalmente.
E agradeço a Deus por ter sido quem fui e por ter tido a vida calma e pacata que tive…
…Até aos fatídicos onze minutos.
Contágio
Ciclo I, Crónica 1.3
Here lies the door that doesn’t open…
… Find the key, drowned in blood and chained with fear…
Sede. Ira. Desejo. Angústia.
— Amo-te, …
Parcas palavras. Tamanha intensidade.
Uma simples frase que constrói e, simultaneamente, corrói a ambição dos nossos seres.
— … mas ao mesmo tempo, odeio-te.
É assim a vida. Complexa e frenética, recheada de desafios exorbitantes que nos levam a sonhar para além das fronteiras do inimaginável. Mas naquele momento, apenas uma fronteira me era colocada diante dos meus cansados olhos.
— Amo-te — continuei, convicto de que iria obter uma resposta —, mas sabes que te odeio plenamente; venero-te como a uma deusa, mas no entanto… sabes que te desprezo como à terra que piso.
Ela não esboçou qualquer expressão na sua bela e angelical face.
— Mas, — murmurou ela, parecendo um pouco retraída nos sentimentos — apesar de tudo isso…
— Sim, quero-te — interrompi eu, colocando a palma da minha mão no seu rosto suave — Agora ou nunca, antes que me arrependa futuramente dos meus actos.
— Possui-me, aqui e agora.
E assim o fiz. Beijei-a calorosa e ardentemente, como uma serpente saboreia a sua presa. O meu possante olhar tornara-se deveras… aliciante e malicioso. O veneno que é o amor começa a produzir os seus desejados efeitos. Ela tomba diante dos meus pés, soltando um ligeiro fio do divino néctar da vida por entre os seus firmes e hirtos lábios.
Ela chorava. Ela cantava.
Ela suspirava pelos anjos que a viriam agora salvar da sua penitente redenção. Observo o seu escultural corpo, coberto por um sensual vestido de seda avermelhado. Uma rosa, pousada na parte superior dos seus longos e negros cabelos, chamava pelo meu nome, gravado nas runas do esquecimento. Avanço um pouco, abaixo-me e acaricio novamente o seu rosto, pálido como a penumbra do luar.
— Adeus, meu amor… e espero que me perdoes.
Levanto-me novamente e coloco-me diante do espelho, espelho esse com que ela resguardava as suas insanas memórias. Olho para a minha perversa e enigmática figura.
Sede. Ira. Desejo. Angústia.
Por tudo o que eu te fiz, espero que me perdoes.
Mas fundamentalmente, … quero que saibas que sempre te amarei.
Hipnose
Ciclo I, Crónica 1.2
Cruel and insane…
… And this is just the beginning…
“Palavras constroem saber.
Saber constrói destinos.
Destinos colidem com as barreiras do esquecimento.”
E assim se conclui mais um ciclo.
Pergunto-me então, absorto num único caminho, porque raio as minhas doces e celestiais palavras não me conduzem a lugar nenhum. Nenhures. Népias. Nada.
Sente-se um falso vazio na minha torturada alma, pensamentos que me foram exumados perante o possante olhar com que me deparo, mortificado.
Olhos azuis e penetrantes, cabelos longos e pretos.
Pele morena e suave, lábios carnudos e sensuais.
A profundeza do seu ser atrai-me. Caio, substancialmente, nas suas angelicais garras, mesmo tendo a perfeita consciência que me encontro com o impossível. A sua leveza (ou deverei dizer, beleza?), acredito piamente, pede-me que observe a sua esbelta e escultural figura, que me leva a concluir o que há muito esperara:
Ela é a chave.
A chave que abre as portas da adoração.
Abro a minha boca, soltando assim árduas, mas esclarecedoras palavras. Espero pela sua reacção, nervoso e simultaneamente ansioso, até ao desejado momento em que ela sorri — como é belo o seu sorriso! Inesperadamente, línguas envolvem-se mutuamente, enquanto a minha mente mantém-se impassível na sua lúcida e cauterizante imagem.
E é aí que percebo, finalmente:
“Palavras constroem saber.
Saber constrói destinos.
E destinos quebram as infinitas barreiras dos nossos limites.”
Neogénese
Ciclo I, Crónica 1.1
Something lurks in the darkness…
… And you have entered within an epic and evil world…
— Vou-me deitar, mãe, que já se faz tarde.
Um jovem rapaz, cansado e implacavelmente desfeito com a nefasta doutrina que é a vida, preparava-se para o repouso absoluto entre os deuses, embora antes tivesse a ingrata missão de denunciar o seu repúdio para com a realidade em que vivia.
Apenas uma pergunta persistia na sua estática mente:
Porque existo?
Existo porque assim Deus me concebeu.
Mas qual é a razão da minha existência?
Desconheço inteiramente.
Vivo porque… olha, vivo, que merda.
Não preciso de dar explicações filosóficas da treta a ninguém.
O jovem sentou-se na borda da cama, recheada com um ligeiro aroma a eucalipto que florescia no seu santuário. O seu altar, vasto em memórias, jazia mesmo em frente dos seus negros e impávidos olhos. Várias velas ardem com o seu inimitável esplendor, cantando pausadamente por entre os lúcidos cantos dos anjos.
— Pois é, enfim… Estamos sós.
A figura imortalizada de Jesus Cristo.
A sua aura paira sobre o quarto, sobejamente decorado para a sua glória final.
Era um desafio. Talvez o derradeiro desafio.
A noite em que a sua redenção era finalmente atingida.
— Não há nada como ser mártir, pois não, Emmanuel? — murmurou, sereno, o rapaz que se levantara agora para acolher o mensageiro dos céus, aquele que o iria consagrar como eterna parte da terra em que nascera, crescera e vivera o suficiente para tomar a última e infindável decisão.
— Escuto as Tuas palavras, Senhor.
O rapaz sentiu o sepulcral silêncio a vaguear pelas veias, ouvindo o rosnar do infinito até se dirigir ao altar e pegar numa pequena e leve adaga, embebida num cálice cheio de um néctar avermelhado. A sua lâmina, solenemente afiada com a sua renegada inocência, assentou-se calma e lentamente na carne escura do seu pescoço, o qual não vacilou após sentir a sua presença. Sem qualquer remorso e misericórdia, o despacho fatal foi nobremente executado.
A redenção fora consumada. Cristo olhava, sem qualquer expressão fundamentada na sua carente face, o seu mártir. Estranhamente, ouviu-se um longo e agoniante suspiro.
Existo porque assim Deus me concebeu.
Mas qual é a razão da minha existência?
Desconheço inteiramente.
Vivo porque… preciso de procurar respostas para estas minhas perguntas tolas.
Porque o destino assim mo exige — viver muito para mais tarde muito recordar.
Prefácio
Num reino dourado, persiste uma existência banhada em mentira
Protegido pela sua essência, ele canta solenemente as preces do planeta
Pétalas voam, com elas levando todos os males para desconhecidos horizontes
O florido jardim que as acolhia chora, contudo sorri pelas suas alegres canções
Espadas brilham, guardando esquecidos templos enterrados sobre antigas memórias
Civilizações caem, contudo novas torres se erguem perante os bravos céus
Nações vergadas ao peso do trono, vozes que clamam pelos seus corajosos reis
Sábias palavras cantadas em coro que luzem sobre as suas infames revelações
Constroem sagazmente a guerra que se envolve em profunda tormenta e sublevação.
Entre a bruta, mas efémera liberdade e a dócil, mas eterna redenção,
Uma nova e violenta era nasce perante a busca pela verdade final.